quinta-feira, 5 de abril de 2012

Mirorós, um tormento regional.


Mirorós, um tormento regional.



Antes de entrar no mérito, isto é, de evocar os fatores destronadores da barragem de Mirorós, creio ser muito substantivo recorrer um pouco à história do desenvolvimento regional. Esta, infelizmente, nada plausível, mas sobremaneira, crucial para se lançar um olhar critico sobre o episodio em questão.
Claro, gostaria de começar falando de coisas alegres e agradáveis, ate mesmo porque elas são o que mais interessa ao coletivo inconsciente e, seguramente, o que mais permeia o conjunto de ações no ideário e ideal dos povos em diferentes tempos e espaços. Alem disso, se não resolvem os nossos problemas, as coisas aprazíveis, ainda que momentaneamente qual paisagem de folhinha, conseguem congelá-los. É exatamente por isso que estamos o tempo todo, aspirando lugares paradisíacos como forma de apagarmos por horas ou dias, o nosso sofrimento, as nossas desilusões e, evidentemente, o temor da inevitável quimera, a bicha danada que come de janeiro a janeiro e nunca enche a sua pança furada, a espantosa morte.
Mas a verdade, se é que existe verdade, é que não aprendi a trocar gato por lebre e nem tampouco colocar chifre na cabeça de cavalo. Mirorós, hoje sem passar e sem faltar nada, é um tormento regional como também o foram outras políticas voltadas para o desenvolvimento regional, a exemplo da cultura do feijão e da irrigação, “pensadas entusiasticamente como redentoras de nossas plagas” mas que tiveram um triste fim, ambas saíram pelo lamacento ralo de interesses “alheios”.
Está avivado em nossas mentes o histórico e sonífero desenvolvimento regional, fundado no represamento das águas superficiais que seriam alimentadas pelas pluviais, mas que de praxe, não passou de oba-oba. No nosso caso , pensou-se no represamento das veredas que figurariam como promessas, sonhos de vastas áreas agrícolas a se perderem de vista, de uma fruticultura exuberante e suculenta e uma piscicultura não menos vultosa e ensejadora do êxito e felicidade de todos. Porem nada, absolutamente nada vingou, se quer foi principiado.
Nessa perspectiva, SUDENE, SUVALE, CODEVASF, DNOCS, entre outras mirabolantes empresas, “sumiram”, “esvaíram” no espaço qual fumaça em meio a forte vento. Nesse contexto a bola da vez foi a indústria da seca, álibi de enriquecimento de grupos econômicos influentes. Acontece que proferir, alardear o discurso da seca, sempre representou a automática isenção dos enormes débitos e, ao mesmo tempo, aquisição de novos e exponenciais empréstimos, via de regra, sob especialíssimas condições de juros e “pagamentos”, empréstimos esses ventilados como sendo destinados a minimizar os históricos e endêmicos problemas de levas e levas da população radicada no polígono da seca, mas que tomaram outros fins que podemos imaginar.
Ante o hedonismo do capital, o velho Romão Gramacho, dos Tapuias, das imemoráveis pinturas rupestres, dos paredões atemporais, das taboas, dos mistérios e lendas, está definitivamente morto, assim como também o estão as águas subterrâneas. É a saga da mortificação de tudo por poucos.
Por esse prisma, denunciar que Mirorós está com os dias contados, é tanto necessário quanto abominável. Necessário porque é um pleito de todos posto que ninguém sobrevive sem água, abominável devido a falta de nexo no trato da realidade daquela barragem. Não é que a galera que mais gasta água e insiste em continuar gastando com os vultosos projetos de irrigação, além de ser sem contraprova os destronadores da fonte, é quem mais fala em racionalizar o precioso liquido. É como diz a rapaziada dos games, “ninguém merece”.
Cara, é tanta hipocrisia por parte dos atores que mais consumiram e consomem aquele espelho d’água, que mais definitivamente obstruíram os canais alimentadores da barragem, via ampliação das áreas agricultáveis que supõe efetivo desmatamento da vegetação ciliar consorciado com intenso processo erosivo, que nos deixa asfixiado. Então, a gente fica meio que sem saber por onde começar. Mas como se diz na linguagem popular, é preciso dar nomes aos bois, afinal todo impasse, todo problema coerentemente encarado, pressupõe um exame acurado a fim de identificar causas e efeitos e, assim, poder implantar e implementar ações com vistas a sua solução ou minimização.
Não sei, posso estar errado ou exagerando, todavia me parece muito corrente a inversão das coisas nos dias que se seguem. Assim, é razoável dizer que desde os valores, a cultura, a indústria cultural, o consumo, a informação, esta sobremaneira distorcida e quase imprestável, tudo sem faltar nada, é muito arbitrário e nojento. Em síntese, é um estado de coisas inóspito e completamente destoante daquilo que a concepção iluminista legou à modernidade como ético e moral. Toma-se, por exemplo, o ter pelo ser, sem se examinar os meios de tal “proeza”, isto é, de tal afortunamento material ou, frequentemente, descarta-se quaisquer valores daqueles que eventualmente estão desprovidos de bens materiais.
Ora, o ser não prescinde o ter, mas este não assegura necessariamente àquele. O velho Marx, no contexto da Revolução Industrial chamou a atenção para o fato do homem que desde aquela época viveu em função da produção econômica, quando esta é que deve estar efetivamente em função dele. É essa inversão que torna os homens estranhos a si mesmos, indiferentes a si mesmos, degradadores do meio ambiente e por extensão, de si próprios como elementos centrais da natureza.
Nessa perspectiva, o vilão passa por vitima e vice e versa. Nunca socializaram tanto a ameaça de desaparecimento das águas de Mirorós como agora. Tudo bem, o problema é preocupante e inadiável, mas é preciso dizer que o problema não emergiu agora, nesse momento, como um sopro de uma força alienígena conspiradora, ao contrario, foi se revelando e tornando perceptível a cada dia ante a sanha de reprodução do grande capital regional naquele território.
Então, observa-se um clamor geral de empresários, comerciantes, políticos, em resumo, de todas as esferas de poder, inclusive do epicentro do problema no sentido de racionalizar ao máximo o consumo de água. Isso é corretíssimo, mas quem pode nesse momento figurar como exemplo dessa prática, o povo em geral, os grupos influentes em questão, os órgãos ambientalistas? Pôxa, ao contrario dos frutos, da riqueza, da bonança, é legal socializar problemas mesmo sabendo que estes não são na essência de origem de todos e que afetam todos, mas que atribuídos a todos, dão uma idéia bacana de co-responsabilidade que, por conseguinte, emerge para os pólos de poder como um desafogo.
Assim, verifica-se um grande alarido. É um corre-corre para ali, um corre-corre para acolá. Todos se arvoram de muito preocupados com a situação da água, e igualmente se portam como verdadeiros solucionadores do problema, defensores e autênticos paladinos da causa popular. Só vendo o quadro de efeitos publicitários que, na essência, infelizmente, não passa de um engodo. É o jogo dissimulado de políticos e empresários que em nome da locupletação tornam-se embebidos de gentilezas, cortesias, delicadezas e outros gestos recíprocos que revelam exclusivamente o aspecto coeso e coercitivo do grande capital regional. Ora, ficar no âmbito da constatação, afirmar que a água do Mirorós está acabando, é dizer o óbvio, o que salta aos olhos de todos. O que é crucial mesmo é identificar a causa de tal sumiço e, evidentemente, criar mecanismos para coibi-la ao máximo.
Do contrário, a tão aventada sustentabilidade ambiental fica sem audição, sem visibilidade e, absolutamente, sem nenhuma credibilidade. De resto, além da sanha do grande capital, aspecto esse, creio razoavelmente focado e argumentado no presente texto, torna-se necessário enfatizar que embora os grandes grupos econômicos regionais são os protagonistas e, como tal, os atores ativos no processo de degradação de Mirorós, as demais instituições sociais a exemplo de escolas, igrejas, poderes judiciário, executivo e legislativo e, com ênfase, a sociedade civil a quem mais a barragem interessa e pouco ou quase nada tem feito para evitar os danos impostos àquele espelho d’água, também tem relativa culpa. Só assim, podemos fomentar uma real consciência ecológica e criar uma perspectiva mínima de vida para as atuais e futuras gerações.